Jovem cineasta brasileiro faz carreira em Los Angeles

O ribeirão-pretano Neto dePaula Pimenta deixou sua cidade natal e está vivendo o sonho de trabalhar com cinema em Los Angeles, nos Estados Unidos, para onde foi há sete anos. Seja no papel de roteirista, produtor, diretor ou ator. “Queria me estabelecer em um país e indústria que possibilitam a formação e evolução de profissionais independentes e que sustenta a carreira dos que preferem trabalhar fora do sistema”, destaca. Desde então, montou a produtora Pimenta Rosa Productions, em parceria com outro brasileiro, João Rosa, e passou a produzir comerciais, curtas, conteúdo para a internet.

Neto, que nunca assistiu novela, não considera cinema e série um “entretenimento passivo”. “Sempre interagi com as obras, assistindo dezenas de vezes, analisando o ritmo, simbologia, atuação, diálogo, mise-en-scene e como tudo se encaixava naquele ‘sonho’ de duas horas que vinha a transportar sua audiência à um outro mundo”, relembra.

O jovem cineasta destaca que fazer cinema hoje em dia é muito mais fácil, porém está mais difícil achar espaço para promover o resultado final, já que existe as dificuldades de exibição. “O grande desafio se torna perfurar essa cacofonia de projetos de baixo orçamento – que chega com uma tarja de “baixa qualidade” que não é de todo sem mérito – por que o equipamento hoje é mais barato, mas o profissional com habilidade e embasamento continua escasso”, diz.

Set enxuto

Neto é adepto dos sets enxutos, com equipes menores. Ele, que já atuou como ator em seriados como Dexter, CSI: Miami e The Millers, além de comerciais, acredita que sets com centenas de profissionais é algo arcaico. “Um desperdício tremendo de grana e um caos desnecessário. Me chame de romântico, mas não acredito em trabalhar assim”, afirma.

O cineasta prefere algo mais íntimo, uma equipe mais afinada, sem tantos profissionais se dirigindo a seus mega departamentos. “As pessoas com quem eu trabalho são as mesmas que cantam parabéns nos aniversários dos meus filhos. Nosso set é organizado, e até hierárquico, mas não é dividido. E a hierarquia que existe é a de respeitar o projeto em si acima de tudo, de qualquer ego e capricho, inclusive dos realizadores”, garante.

Ele e o diretor de fotografia Ivan Rodrigues tentam trazer esse método para o Brasil, mas esbarram no paradigam de que o mais barato tem uma qualidade inferior. “Somos mais baratos por que formamos sempre um coletivo exímio e capaz. Um grupo de alta capacidade criativa, talentoso sim, mas ainda mais maleável, aventureiros, não só abertos ao improviso mas contando com ele”, afirma, destacando que o resultado é um produto vivo, único, feito com bastante preparação mas ainda assim criado no dia, momento a momento.

“Em um país como o Brasil, com tantas dificuldades econômicas, com tanta carência em áreas de infinita maior importância como saneamento, saúde e educação não pode viver refém desse sistema defasado nem tão-pouco continuar com essa mamata da captação de recursos via lei do áudio visual sem controle de qualidade”, ressaltou.

Singapore Sling

Neto escreveu, produziu e atuou no seu primeiro roteiro, que gerou Singapore Sling, dirigido por Marcus Sigrist. E o set, como gosta Neto, contava com apenas 15 profissionais, incluindo os atores Cinthya Hussey, Angélica di Paula e Samuel de Assis.

No longa, Alexandra (Cinthya) e Bruno (Neto) vai para o interior de São Paulo visitar os pais da moça, mas, a pedido dela, vão até a casa de Caio (Samuel), ex-namorado de Alê, e Diana (Angélica), noiva dele. No local, os quatro despertam lembranças e remorsos do passado.

Elenco em cena de Singapore Sling – Divulgação

A ideia surgiu a partir de um telefonema de Sigrist, que tinha a ideia de um filme de baixíssimo orçamento, quatro atores, uma locação e oito dias de filmagem. Essas possíveis limitações são o que move Neto. “Entendo isso tudo como bordas de uma tela em branco aonde eu posso criar livremente. Dentro dessas quatro linhas “impostas” existe uma infinitude de possibilidades”, filosofa.

Após a ligação – “e colocar os filhos para dormir” – Neto amadureceu a ideia e, em duas horas, já retornou a ligação com a premissa e o esboço do enredo. “A história tem muita coisa baseada na minha vida. Não os fatos em si, como ocorrem no filme, mas peguei partes sem aparente conexão e uni diversos elos não cronológicas a uma cronologia só”, explica.

Singapore Sling já percorreu festivais de cinema pelo mundo, onde tem tido ótima repercussão. A receptividade tem sido excelente, e o filme realmente merece elogios, com uma direção primorosa de Marcus, com ótimos planos sequência – foram 11, cada um de 9 minutos -, e atuações seguras dos atores, em um enredo que disseca as relações humanas.

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Porém, não há previsão de ser lançado no Brasil, graças a burocracia nacional, já que o filme precisa passar por uma série de processos até chegar aos cinemas. “Gostaria muito que o filme fosse exibido no país onde foi filmado. Além da curiosidade da recepção, volto a reiterar que quem fez esse filme foi a equipe e seria uma honra tremenda poder convidar a todos para uma exibição com público local, para expor o mercado a esses maravilhosos profissionais que possibilitaram a realização de um projeto deveras ambicioso para o seu “tamanho””, afirma.

Projetos

Neto também presta consultoria criativa, atendendo a clientes em projetos específicos, carreira e até mesmo a exploração de como viver uma vida holística com mais autonomia e criatividade. “No momento estou desenvolvendo um projeto – Image Shifters, Co. – em volta dessa filosofia criativa holística que tem tomado a maior parte do meu tempo. Expandindo também meus horizonte enquanto auxílio meus clientes a expandir os deles.”, explica.

E o incansável Neto não para. Ele está escrevendo quatro roteiros, dois de ficção e dois documentários, e tem conseguido novos trabalhos graças à receptividade de Singapore Sling. “Entre o modelo de produção – discutido em mesas redondas pôs exibição – e a proporção de qualidade x custo, o filme tem aberto ótimas portas. Inclusive abrindo caminho para uma maior abrangência com a minha consultoria”, afirmou.

Ou seja, Neto dePaula já é uma grande realidade do cinema para ficarmos de olho.

 

 

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